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Há guerras que começam longe e entram-nos pela sala adentro através de um ecrã. Decisões tomadas em nome da “segurança” tornam-se assunto de café, comentário nas redes sociais, debate televisivo. Em Escudos Humanos, texto de Patrícia Portela com adaptação e encenação de Tiago Sarmento, essa distância confortável é posta em causa: um grupo de cidadãos decide atravessar fronteiras e colocar o próprio corpo entre o ataque anunciado e as suas possíveis vítimas.
A partir de uma premissa que oscila entre o absurdo e o inquietantemente plausível, o espetáculo confronta-nos com uma pergunta direta: o que significa agir quando a guerra parece sempre acontecer aos outros? Publicado em 2008, o texto ganha nova urgência num contexto internacional marcado por instabilidade e conflito, convocando o espectador não como observador neutro, mas como parte da equação.
Nesta conversa, Tiago Sarmento fala do processo de adaptaçã, que desloca a ação para um grupo de teatro amador composto por funcionários e ex-funcionários do Banco de Portugal, do equilíbrio entre sátira política e desconforto ético, e da ideia de responsabilidade individual num mundo que funciona como um “grande condomínio”, onde nenhuma decisão é verdadeiramente isolada. Mais do que oferecer respostas, Escudos Humanos instala uma inquietação persistente: até onde estamos dispostos a ir quando a História nos pede posição?
O espetáculo, uma iniciativa do Grupo D’Artes e Comédias do Grupo Desportivo e Cultural do Banco de Portugal (GAC) acontece nos dias 25, 26, 27 e 28 de fevereiro, pelas 21h00, no Auditório do Liceu Camões.
“Escudos Humanos” parte de uma situação de guerra declarada “por razões de segurança” e da suspeita de armas nucleares. O que te interessou mais nesta premissa: a atualidade política, o absurdo da narrativa, ou a forma como as pessoas reagem coletivamente?
É a primeira vez que enceno um grupo de teatro amador e tem sido uma experiência profundamente enriquecedora. Quando recebi o convite do GAC, interessou-me a diversidade etária do elenco, que vai dos vinte e poucos anos até aos setenta. O que me levou a questionar que peça, ou até, que temática seria relevante levar à cena. É impossível ficar indiferente aos conflitos internacionais e às guerras que parecem não ter fim. As imagens, os videos e o sofrimento humano estão em todo lado nas televisões, nos jornais e nas redes sociais. A decisão de encenar a obra de Patrícia Portela foi imediata. Escudos Humanos é um texto que retrata a guerra a partir da experiência espectador. De nós. Que temos o privilégio do nosso país não estar em conflito e não conseguimos aceitar ver o outro a sofrer. Apesar da obra ter sido publicada em 2008, a instabilidade política internacional torna o texto particularmente atual e necessário de ser trazido à cena.
No centro da história está um grupo de teatro que decide viajar para o país que vai ser atacado para servir de escudo humano. O que é que esta decisão extrema revela sobre o cidadão comum hoje?
À primeira vista, a decisão de um grupo de cidadãos partir até ao país prestes a ser atacado, para servir de escudo humano, pode parecer um cenário de ficção. É, sem dúvida, uma acção extrema, mas também um ato de profunda generosidade que pode salvar uma população. Recentemente, assistimos a imagens de ativistas a partir numa flotilha humanitária até Gaza. É um ato de coragem e que pode até não ter uma repercussão política imediata, mas que levanta a questão essencial: o que poderíamos ter feito, ou o que ainda podemos fazer coletivamente
O texto é de Patrícia Portela, com adaptação e encenação tuas. Como foi o processo de adaptação: o que se manteve, o que foi transformado e o que foi “descoberto” em ensaio?
Na obra original de Patrícia Portela, os protagonistas são estudantes de uma escola secundária que partem até ao país prestes a ser atacado, a fim de impedir o conflito, sendo posteriormente seguidos pelas mães preocupadas que os tentam resgatar da guerra. Dado que o elenco é composto por funcionários e ex-funcionários do Banco de Portugal, invertemos os papéis. Na nossa adaptação são os pais quem tentam impedir a guerra e os filhos que, mais tarde, tentam salvá-los. Mantivemos a maior parte do texto original e críamos cenas novas que complementam a dramaturgia do espetáculo.
O espetáculo é descrito como estando “entre a sátira política e a reflexão urgente”. Como equilibras o humor e o desconforto sem cair na moralização ou na caricatura fácil?
A Patrícia Portela é uma dramaturga extraordinária e com uma escrita cirúrgica e singular. Consegue abordar temas difíceis a partir do humor e do drama, mantendo a dignidade e a densidade das suas personagens. A escrita é intima e honesta, sem cair em caricatura. Escreve personagens por quem temos empatia e sentimos que fazemos parte da equação do problema. É perita a colocar questões que ficam a pairar ao longo do espetáculo. O mérito é todo seu.
A peça coloca perguntas sobre “responsabilidade individual” e “decisões coletivas”. Na tua leitura, onde começa e onde acaba a responsabilidade de cada um quando o mundo entra em lógica de guerra?
Gosto de pensar no mundo como um grande condomínio. Um lugar onde todas e todos pertencemos e diariamente somos confrontados pela diferença de ideias. É precisamente nessa diferença que somos mais fortes. É um diálogo constante que nos obriga a refletir como podemos coabitar em comunidade. A responsabilidade individual nunca está dissociada da coletiva. A nossa casa não vive isolada. Tal como as nossas ideias. A diferença é fundamental e é o que torna a nossa democracia mais forte. Todos fazemos parte deste condomínio e juntos temos a força e o dever de agir pelos nossos ideais. Às vezes é difícil comunicar com o outro. Mas não pode ser mais fácil agir com violência. A História ensina-nos. Sem diálogo a violência gera mais violência, destruindo tudo o que há de mais belo no mundo. Temos de ser capazes de falar com os nossos vizinhos. Tem de haver lugar para todas as crianças poderem brincar, sonhar e ir à escola, sem conhecerem o horror da guerra. Neste condomínio escolho ter a porta aberta aos meus vizinhos e ouvi-los, pensar com eles e agir pelo coletivo.
Há uma frase muito forte no contexto: enquanto o país decide a guerra, o debate acontece “nas redes sociais, nos cafés e nos telejornais”. Como é que a peça olha para esta sensação de participação permanente, e para a impotência que muitas vezes vem com ela?
Respondo citando um excerto da obra de Patrícia Portela - “(…) Querido país e queridos familiares. Sentimo-nos forçados a agir. O mundo um dia será dos nossos filhos e não podemos deixar que aqueles que são hoje nossos progenitores o tratem desta maneira. Partiremos sem demora hoje de madrugada para o país prestes a ser atacado pelo nosso próprio país. Discordamos da decisão de declarar guerra ao país em causa e tentaremos contrariar essa decisão. Contamos servir de Escudos Humanos a famílias residentes no país prestes a ser atacado. Contamos ocupar locais da máxima importância para a sobrevivência dessas mesmas famílias actuando como protecção humana contra a sua possível destruição e/ ou exterminação pelo nosso país. Escolhemos como locais a ocupar os seguintes alvos prioritários deste conflito: dois reservatórios de água, uma central eléctrica, um armazém de distribuição de comida, um poço de petróleo e uma farmácia que se encontra nomeada na lista negra do nosso país como sendo uma fábrica de armas nucleares. O objectivo do nosso posicionamento geográfico é adiar a guerra até ao ponto de a tornar desnecessária, obsoleta, absurda.”
O título “Escudos Humanos” é direto e pesado. Para ti, o “escudo humano” é um gesto de coragem, uma ilusão de controlo, uma performance política, ou tudo isso ao mesmo tempo?
Ser escudo humano é um ato de coragem que pode ocupar, em nós, um cenário de ficção ou um ato empático de ação real. Na peça, esta figura oscila entre o simbólico e o real. É precisamente nessa ambiguidade que reside a sua força dramatúrgica.
Olhando para o mundo contemporâneo, quais são hoje os temas que mais te “obrigam” a fazer teatro, e o que gostavas que o público levasse consigo depois de ver “Escudos Humanos”?
O Teatro está em constante mutação. Vai acompanhando de perto a evolução do mundo, permitindo-nos escutar realidades distintas da nossa e a criar laços de empatia. Escudos Humanos não dá uma resposta fechada para o fim da violência. Levanta possibilidades e devolve a questão ao público. O que gostaria que o público levasse consigo é precisamente essa inquietação: a consciência de que o futuro é uma construção coletiva.
Foto: © Filipe Ferreira
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