Entrevistas

Tiago Torres da Silva: "A solidão tornou-se a maior doença da humanidade"

Por

 

Pedro Mendes
October 7, 2026

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Tiago Torres da Silva: "A solidão tornou-se a maior doença da humanidade"

Imitação dos Pássaros, a nova criação de Tiago Torres da Silva, está em cena no Teatro Variedades, em Lisboa, até 25 de outubro. A peça acompanha Filipe, um jovem cujos sonhos a avó acolhe com naturalidade e o pai rejeita como sinal de fraqueza. A paixão de Filipe pelo teatro, e em particular a sua identificação com Nina, de A Gaivota, de Tchekhov, faz vir ao de cima as tensões de uma família aparentemente normal, marcada por segredos, ressentimentos e afetos que ficaram por dizer.


Com Lídia Franco, Baltasar Marçal e Tiago Fernandes no elenco, o espetáculo trata da solidão dentro da família: os mais velhos sentem-se esquecidos, os mais novos não encontram quem os ouça e os adultos deixaram de olhar para quem está mais perto. Tiago Torres da Silva, autor do texto e encenador, fala-nos desta reflexão sobre a dificuldade de comunicar e sobre a herança emocional que passa de geração em geração.



A sinopse diz que Imitação dos Pássaros é uma peça sobre uma família "normal". O que te interessa nessa normalidade aparente?

Essa aparente normalidade aumenta a possibilidade de identificação do público com cada uma das personagens ou pelo menos com uma delas. Nós gostamos de aparentar que está sempre tudo bem no nosso seio familiar. Gerações mais velhas escondem os seus tropeços, querem sempre ser um exemplo de virtude e com isso fazem que as gerações mais novas estejam completamente impreparadas para as suas próprias quedas. Interessa-me falar sobre essa desatenção que damos uns aos outros e interessa-me que quem assista à peça se questione sobre estes assuntos. Um dia poderá ser tarde para qualquer um de nós. 


Porquê A Gaivota, de Tchekhov? O que tem a Nina para que seja ela a personagem com que o Filipe se identifica?

Nós temos um imaginário de gaivotas muito poético. É a gaivota do O’Neill e da Amália; é a gaivota da Ermelinda Duarte simbolizando a liberdade, mas para os Moscovitas que não têm mar por perto, a gaivota é um pássaro do lixo, a mais baixa na hierarquia das aves. Interessou-me isso: Filipe é visto de maneiras totalmente diferentes pelo pai e pela avó. Para ela, ele é capaz de grandes voos; para o pai, ele é um inútil que nunca se levantará do chão. Interessou-me que, com percursos diferentes, possamos olhar para a mesma pessoa e ver coisas completamente opostas. E isso tem muito mais a ver com quem observa do que com quem é observado.




É a paixão do Filipe pelo teatro que faz rebentar os conflitos da família. Vês o teatro como algo que perturba a ordem das coisas?

Vejo o teatro e a arte em geral como o contrapoder com mais potência no mundo atual. No momento tão estranho que estamos a viver um pouco por todo o mundo acho que os artistas têm de reclamar para si esse lugar absolutamente necessário e apontar o dedo e escarafunchar as feridas. 


O teatro tem esta coisa de estar a acontecer em tempo real. O público está a viver um momento único e irrepetível. Numa sociedade onde tudo está a virar tecnologia e comunicação através de ecrãs, acho que as artes performativas vão ter uma importante palavra a dizer porque são reais, palpáveis. E isso pode ter um impacto altamente perturbador. 


A avó acolhe os sonhos do Filipe com naturalidade e o pai vê-os como fragilidade. Porque é que a compreensão vem de quem está mais longe, em termos de geração?

Parece-me que as pessoas que viveram muito, não só pela idade mas, sobretudo, pelas experiências a que se submeteram, tornam-se mais sábias e menos julgadoras. As pessoas que não veem nada para além da sua realidadezinha fecham-se à novidade. Acham que a sua vida é resposta para tudo. Mais do que uma questão etária, há nesta peça uma mulher que escolheu alargar os horizontes e um homem que não viu nada que não fosse o lucro e o enriquecimento. Ao vermos os recentes resultados das eleições no Brasil, percebemos que é importante falar sobre estes assuntos: sobre o autoritarismo, sobre o egocentrismo exacerbado. Sobre este fechamento ao outro. Eu ando muito preocupado com os caminhos do mundo e isso reflete-se em tudo o que escrevo. 




A sinopse diz que todas as personagens enfrentam a sua própria solidão. Escreveste a peça a partir de uma personagem ou a partir dessa ideia de solidão partilhada?

O ser humano está sozinho por natureza, mas nestes últimos anos, acho que a solidão se tornou a maior doença da humanidade. Por um lado, a medicina permite que as pessoas vivam muito mais tempo, mas não há políticas que mantenham os mais idosos em contacto com o mundo. Por outro, os mais jovens, que estão sempre a comunicar através das redes sociais, ficam mudos numa conversa, não namoram, não olham os outros nos olhos, não sabem olhar para o outro. As gerações intermédias estão demasiado preocupadas a tentar pagar a prestação da casa, a apanharem transportes durante horas para irem trabalhar, a tentarem arrastar-se até ao fim de semana, até às próximas férias, até à reforma e, quando dão por isso, esqueceram-se de viver.  Portanto, não te sei responder, acho que as personagens apareceram assim. Eu apenas as escutei. E quanto mais as escutava, mais coisas elas tinham para me dizer. Eram elas ou era eu que estava sozinho? 


Fala-se de uma "herança emocional" que passa de geração em geração. É possível quebrar essa herança, ou só dá para a reconhecer?

Penso que essa herança é quebrada quando é enfrentada. Enquanto estivermos mais preocupados com as aparências do que com a verdade até reconhecer essa herança será uma tarefa impossível. 


O pai receia o julgamento dos outros. Até que ponto a imagem que uma família quer dar para fora também é uma personagem da peça?

É uma das personagens centrais da peça. O pai atropela tudo e todos para manter uma imagem de homem de sucesso, de família de sucesso, e isso vai levá-lo a perder quase tudo. 




Voltas a trabalhar com Lídia Franco, que já tinhas dirigido antes. O que é que ela traz a esta avó?

Eu conheço a Lídia Franco desde que nasci. As nossas famílias eram amigas. Por isso, trabalhar com ela é como voltar a casa e, sinceramente, esta peça é tão íntima que só é possível com uma atriz que tem a dedicação que a Lídia tem. Ela traz a esta avó a verdade que só quem conhece os mistérios do teatro consegue alcançar. Naquela hora e meia, a Lídia não está a representar, está a viver! E isso fica bem patente nas reações que o público tem e nos aplausos intermináveis que lhe têm oferecido todas as noites. 


Também já tinha trabalhado várias vezes com os outros atores - Baltasar Marçal e Tiago Fernandes - penso mesmo que essa intimidade artística que havia entre mim e todos os intervenientes foi a melhor matéria-prima para construir esta encenação. 


Escreves e encenas os teus textos. Como é que o encenador trata o dramaturgo durante os ensaios?

Sem nenhum respeito. Altera as frases, corta, acrescenta… a linguagem cénica é muito diferente da linguagem escrita. O encenador está-se completamente a marimbar para o dramaturgo. Qualquer texto teatral meu é muito melhor no dia da estreia do que quando começamos os ensaios. 



A sinopse termina com a ideia de que "só o amor salva". Não tiveste receio de que essa frase soasse ingénua?

Acho que, no geral, a arte tem-se afastado do ser natural atrás de uma ideia de bom gosto que eu detesto. Como disse a Adriana Calcanhotto: “eu não gosto do bom gosto”. Acho que tudo fica muito cínico e muito pouco transformador. Então, se é preciso recorrer a uma certa ingenuidade para trazer a arte para um lugar de comunicação, não tenho qualquer pudor em fazê-lo. Há muito mais sabedoria na ingenuidade do que parece. Eu ando à procura… desde que comecei a escrever e até ao último ponto final estive e estarei à procura.  Justamente por ter perdido a ingenuidade muito cedo, hoje acolho-a como uma das ferramentas mais poderosas e necessárias para progredir neste caminho onde se fazem sempre muitas perguntas, mas raramente se encontra alguma resposta. 


Foto de Tiago Torres da Silva: © Ewan Burns 

Fotos de cena: © Filipe Ferreira

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