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Três décadas de paixão pelo teatro: O legado e futuro do Grupo D'Artes e Comédias no Festival Entr’Cenas

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COFFEEPASTE
November 14, 2024

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Três décadas de paixão pelo teatro: O legado e futuro do Grupo D'Artes e Comédias no Festival Entr’Cenas

Nesta entrevista com Rui Leitão, Filomena Bispo e Isabel Lage, membros da organização do Festival Entr’Cenas, celebramos os 30 anos de dedicação e evolução do Grupo D'Artes e Comédias (GAC) do Banco de Portugal. Fundado por colaboradores e reformados da instituição, o GAC cresceu a partir das suas origens amadoras, e hoje destaca-se pela qualidade e paixão no teatro. Nesta primeira edição do Entr’Cenas, que homenageia a atriz Manuela Maria, o festival pretende promover a diversidade das artes cénicas, oferecendo espaço tanto para a tradição quanto para as novas vozes do teatro. Ao longo da entrevista, Rui, Filomena e Isabel refletem sobre as conquistas do grupo, os desafios da organização deste evento e as expectativas para o futuro, mostrando o impacto do GAC e do Entr’Cenas no cenário cultural português.


Que balanço conseguem fazer de 30 anos do Grupo D´Artes e Comédias do Banco de Portugal?

Fazemos um balanço muito positivo da atividade e do percurso do Grupo D´Artes e Comédias do Grupo Desportivo e Cultural do Banco de Portugal (GAC). Destacamos, desde logo, o facto de o Grupo se manter ativo e unido ao longo destes anos, uma vez que, apesar de ser composto por trabalhadores e reformados do Banco de Portugal, e seus familiares, que desenvolvem ou desenvolveram uma atividade profissional não relacionada com as artes do espetáculo (que lhes ocupa e ocupou, naturalmente, grande parte do seu tempo), não abdicam, ainda assim, no seu tempo livre, de se dedicarem, de forma livre, desinteressada e apaixonada, ao teatro. Destacamos, igualmente, a nossa evolução enquanto grupo de teatro amador, não só ao nível da representação dos atores e da qualidade dos espetáculos apresentados, ao leme de encenadores profissionais, mas também ao nível do trabalho de produção desenvolvido, apostando na sua crescente profissionalização, por forma a alcançar o grande público (não circunscrito ao universo da nossa instituição).


Quais as principais conquistas nestes 30 anos?

O GAC, ao longo destes 30 anos, orgulha-se muito do trabalho desenvolvido e do palmarés conquistado. De entre as principais conquistas, destacamos, desde logo, a manutenção e rejuvenescimento dos elementos que compõem o Grupo, o trabalho com profissionais das artes do espetáculo (que abordam os projetos sem fazer a destrinça entre o amador e o profissional), a crescente profissionalização da estrutura de produção, o intercâmbio profícuo com outras companhias de teatro amador espalhadas de norte a sul do país, as inúmeras digressões realizadas, incluindo em teatros municipais, e todos os prémios conquistados em festivais e concursos de teatro em que participámos.


O que está na origem e qual o objetivo do festival de teatro Entr`Cenas?

O GAC, a partir de 2018, ano em que venceu o Concurso Nacional de Teatro, na Póvoa de Lanhoso, com o espetáculo BrinCadeiras, uma criação coletiva do Grupo encenada por Claudio Hochman, começou a ser convidado por outras companhias de teatro amador para sair em digressão com os seus espetáculos. Incentivados pela participação em vários eventos organizados por outras companhias de teatro, o Grupo pensou que poderia um dia vir a ser a companhia anfitriã. No ano em que comemora o seu 30.º aniversário, o Grupo decidiu ser este o pretexto ideal para se lançar na organização e promoção de um Festival de Teatro que juntasse diferentes companhias de teatro, amadoras e profissionais, e que homenageasse em vida uma figura que tenha tido um contributo marcante para as artes cénicas em Portugal. Atendendo ao facto de esta ser a primeira edição do Festival, e que não pudemos contar com apoios externos de natureza financeira, o Grupo convidou apenas companhias amadoras da Área Metropolitana de Lisboa. O objetivo do Festival passa por celebrar a riqueza e a diversidade das artes cénicas, a fusão entre o legado dos grandes mestres e as vozes emergentes do teatro contemporâneo, abrindo espaço para novos talentos, ao mesmo que tempo que se homenageia uma figura icónica do teatro em Portugal como é o caso da Manuela Maria, de 89 anos, atriz e cofundadora da Casa do Artista que, por coincidência, celebra este ano o seu 25.º aniversário.


Apresentem-nos ao vosso espetáculo, "Terror e Miséria"

O espetáculo Terror e Miséria, parte do texto de Bertolt Brecht, com adaptação e encenação de Nuno Nunes, que retrata uma sucessão de cenas sobre a vida quotidiana na Alemanha no alvor da II Grande Guerra.


Embora seja um clássico de 1938, com fragmentos que dissecam as consequências da ascensão e consolidação do fascismo nas relações sociais e familiares, nas casas, nas ruas, nas fábricas, nos tribunais, nas praças e nas prisões, nesta adaptação foram intencionalmente retiradas do texto original algumas expressões estritamente ligadas à Alemanha dos anos 30, por forma a que o público se possa abstrair dessa realidade e identificar as várias cenas representadas com outros tempos, outras geografias e outras vivências.


E embora sejamos todos herdeiros da lição daquele tempo, comemoramos os 50 anos da nossa liberdade com a perplexidade de, como sociedade, como construção europeia e, enfim, como civilização, não termos as ferramentas para travar a recrudescência do ódio, do preconceito, da ignorância, da prepotência e a persistente crença supremacista entre povos que, nas suas raízes profundas, são irmãos.


A que outros espetáculos vamos poder assistir no Auditório do Liceu Camões?

Num Corte de Asas, do RE/CRIAR Grupo do Grémio Dramático Povoense, com autoria e encenação de Daniel Gonçalves, vencedor do Concurso Nacional de Teatro deste ano, aborda a história de uma piloto de caças talentosa que vê a sua vida transformada quando, após engravidar, é transferida para operar drones militares remotamente. Nesta nova realidade, enfrenta dilemas éticos e psicológicos, questionando a guerra moderna, a tecnologia e a sua própria humanidade, enquanto tenta equilibrar o dever com a maternidade. Uma experiência envolvente e reflexiva que nos confronta com a própria essência do ser humano e do quão transparente consegue ser o véu da ignorância;


Quem Semeia Sonhos Colhe Batatas, do Teatro Passagem de Nível, de Domingos Galamba, com encenação de Porfírio Lopes, retrata a história de um sonhador obstinado e do seu neto, tão parceiro quanto desafiador, na luta conjunta pela conquista de uma horta urbana, na qual as novas tecnologias (que simbolizam a enxada do mais jovem) também ajudam a ganhar a guerra. A trama engrandece-se numa prosa cativante e enérgica, vestida de quotidiano e de múltiplas inquietações. Simultaneamente, revela uma insatisfeita rebeldia em busca de soluções contra a solidão - uma realidade que esmaga os últimos anos de vida de uma boa parte dos nossos anciãos -, e de uma doutrina que facilite às diferentes gerações o direito a poderem coabitar de modo a possibilitar o processo de aprendizagem e de enriquecimento cívico e humano umas com as outras;


Na Boca do Tubarão, do recém-criado Teatro do Imigrante, com autoria e encenação de Marcelo Andrade, apresenta três histórias que exploram questões como políticas anti-imigração, ética em saúde pública e a crise migratória no Mediterrâneo. A narrativa aborda as experiências de quem procura uma nova vida num país estrangeiro, as divergências políticas entre pai e filha, as decisões éticas enfrentadas por médicos nos hospitais públicos e a vivência de refugiados à deriva no mar. O público é convidado a refletir sobre a contemporaneidade e as contradições da imigração moderna.


O que esteve na base da escolha dos espetáculos que vão ser apresentados?

Nesta primeira edição do Festival, em que o Grupo não conta com qualquer apoio externo de natureza financeira, foi decidido circunscrevermo-nos a companhias de teatro amador da Área Metropolitana de Lisboa. A escolha do Teatro Passagem de Nível, cuja história remonta a 1981 e à Sociedade Filarmónica Comércio e Indústria da Amadora, justifica-se pelo facto de se tratar de uma companhia experiente e com um percurso consolidado no teatro amador em Portugal, cujos espetáculos são exclusivamente de autores portugueses, tendo já convidado o GAC para uma das suas edições do Festival Amadora em Cena, nos Recreios da Amadora. O RE/CRIAR Grupo do Grémio Dramático Povoense, da Póvoa de Santa Iria, pertencente ao Município de Vila Franca de Xira, é uma companhia com mais de 130 anos de história, com um papel ativo, marcante e fundamental no tempo de censura, tendo vindo a apostar, recentemente, no teatro contemporâneo. O facto de o espetáculo Num Corte de Asas ter vencido o Concurso Nacional de Teatro de 2024 é um forte indicador de qualidade. Por fim, o recém-criado Teatro do Imigrante aparece referenciado por um grupo de teatro amigo, tendo despertado a atenção pela temática da imigração e de todos os problemas associados. Através da informação pública disponível, é um espetáculo promissor e imperdível, num momento em que assistimos à disseminação do discurso de ódio na europa e no mundo.


Falem um pouco da homenagem que farão a Manuela Maria e do que acontecerá

No âmbito do Festival, será organizada, no foyer do Auditório do Liceu Camões, uma exposição sobre a vida e o legado artístico da Manuela Maria, cedida pela Casa do Artista e pela Junta de Freguesia de Carnide, que o público poderá visitar. Antes de cada espetáculo, o público será também convidado a assistir a um pequeno vídeo sobre esta grande atriz do teatro português, com testemunhos de elementos que compõem o GAC e com pequenos excertos de atuações em peças que tenha participado.


É vossa intenção realizar mais edições do Festival?

Sim. O Grupo tem intenção de perpetuar por muitos anos a realização deste Festival de Teatro, procurando juntar companhias amadoras e profissionais dispersas pelo país, enquanto se homenageia em vida uma figura que tenha tido um contributo marcante para as artes cénicas em Portugal e que tenha inspirado muitos profissionais. Para 2025, o Grupo já concorreu a apoios externos de natureza financeira e não financeira junto da Câmara Municipal de Lisboa e também da Junta de Freguesia de Arroios, por forma a poder concretizar esta intenção. Pretende-se que o “Entr`Cenas” seja o exemplo de uma iniciativa que nasce no seio de um grupo de pessoas que vivem a arte de forma desinteressada, mas que pretendem promover e valorizar a cultura em Portugal, muito em especial, na freguesia de Arroios.


O que perspectivam para o futuro do Grupo?

Pretendemos dar continuidade a todo o trabalho que tem sido desenvolvido até ao momento, melhorando-o em tudo o que seja possível. Neste momento, estamos a trabalhar numa nova produção com o Tonan Quito, As Vozes Cá de Dentro, do autor italiano Eduardo de Filippo, com estreia prevista para abril do próximo ano, em Lisboa, e com digressões previstas para todo o país. Ao mesmo tempo, estamos a trabalhar nas digressões do nosso último espetáculo, Terror e Miséria, programadas para Matosinhos, no Teatro Municipal Constantino Nery, em 25 de janeiro, e em São Miguel, nos Açores, no Coliseu Micaelense e no Teatro Ribeiragrandense, nos dias 7 e 8 de fevereiro.

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