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Schubert escreveu a Fantasia em Fá menor para dois pianistas sentados ao mesmo teclado. Em Fantasie Minor, Marco da Silva Ferreira transpõe essa ideia para dois bailarinos, e os dois corpos acabam por funcionar como um só instrumento. A peça nasceu de um convite do Centro Coreográfico Nacional de Caen, em França, cuja única condição era trabalhar com dois bailarinos com experiência em danças urbanas. Os responsáveis do Centro pensaram no coreógrafo português precisamente por ele ter origem nesse universo. A obra de Schubert veio depois, e Marco da Silva Ferreira achou-a muito apropriada para um dueto a quatro pés (expressão que chegou a ser pensada para título).
O duo portuense Rui Lima e Sérgio Martins trabalhou sobre o tema, que se ouve ao longo do espetáculo, ora na versão original, ora transformado pela eletrónica. A peça tira partido da tensão entre o romantismo de Schubert e as danças urbanas, em vez de se limitar a juntá-los.
Anka Postic e Chloé Robidoux são amigos de infância e têm feito percurso nas danças urbanas. São até parecidos fisicamente, ao ponto de haver quem os julgue irmãos. Quando o público entra, encontra-os sentados a conversar numa das extremidades da plataforma quadrada que serve de palco. As luzes baixam e os dois calçam luvas, levantam-se e dirigem-se a um dos lados do quadrado. Fletem os joelhos, inclinam-se para a frente e saltam para a plataforma, em perfeita sincronia com o início da música.
Este salto repete-se ao longo da peça e estrutura-a. Serve de marcador coreográfico e também sonoro, porque o baque dos pés no chão acrescenta uma batida à paisagem sonora.
Sentem-se as influências do passado do coreógrafo e do presente dos bailarinos. Está lá a linguagem urbana, mas também a escrita coreográfica própria de Marco da Silva Ferreira. Os movimentos compassados ocupam toda a plataforma e o espaço em redor, ao ritmo da paisagem sonora, ora em uníssono, ora em pequenos solos que remetem para as danças urbanas e para as icónicas battles. A duração justifica-se, e a energia mantém-se do início ao fim.
Os figurinos de Aleksandar Protic têm uma base negra coberta por uma camada de tecido transparente. Desdobram-se em várias vestes que vão sendo retiradas. Em conjunto com o movimento e a música, cada troca como que encerra um subcapítulo da peça.
A cumplicidade dos dois intérpretes, que vem do passado, é evidente antes mesmo de a performance começar e atravessa todo o movimento. Transmite uma ideia de camaradagem, e mesmo de brincadeira, até ao final, quando ambos se retiram de palco com um andar decidido, quase desafiador. O formato em dueto remete para o pas de deux do ballet, mas com uma diferença essencial. O pas de deux implica uma hierarquia, e aqui os intérpretes estão em pé de igualdade. De alguma forma, a peça fez-me recordar Simulacro, de Margarida Montenÿ e Carminda Soares, também um dueto onde a cumplicidade e a quase sincronia estão presentes. Num momento em que as relações humanas e a cordialidade entre pessoas atravessam um período conturbado, é bom sentir em palco uma ligação entre duas pessoas que transborda para fora da cena.
A peça foi pensada tanto para o exterior como para o interior. Tive a oportunidade de ver as duas versões: em Lagos, no largo da Igreja, no âmbito do Festival Pedra Dura, e em Mafra, no Museu Nacional da Música. No interior, o desenho de luz de Marco da Silva Ferreira, em colaboração com Florent Beauruelle, Valentin Pasquet e João Félix, acrescenta mais uma camada ao espetáculo. A meu ver, porém, a peça resulta melhor no exterior, porque a paisagem urbana faz de cenário e muda a cada apresentação. Há a luz natural em mudança constante, as pessoas que se movem nas redondezas do palco e a possibilidade de atrair transeuntes. Tudo isto torna cada apresentação única.
Nos últimos anos, Marco da Silva Ferreira tem levado aos quatro cantos do mundo criações como Carcaça, a FOLIA e F*cking Future, apostando em elencos mais extensos. Ao lado dessas peças, o formato íntimo de Fantasie Minor destaca-se. A não perder, de preferência numa praça perto de si.
09 novembro 2025 - Lagos (Festival Pedra Dura)
01 novembro 2026 - Mafra (Museu Nacional da Música)
Ficha Artística
Concepção e coreografia Marco da Silva Ferreira
Interpretação Anka Postic e Chloé Robidoux
Conceção e criação sonora Rui Lima e Sérgio Martins, a partir de Fantasie em fá menor, de Franz Schubert
Desenho de luz Marco da Silva Ferreira, em colaboração com Florent Beauruelle, Valentin Pasquet e João Félix
Figurinos Aleksandar Protic
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