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Birds Are Indie: "Há sempre um lado muito frustrante nisto de olhar para o mundo e para as nossas vidas"

Por

 

Pedro Mendes
April 13, 2026

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Birds Are Indie: "Há sempre um lado muito frustrante nisto de olhar para o mundo e para as nossas vidas"

The Stone of Madness, o sétimo álbum dos Birds Are Indie, chegou em 2026 com uma proposta clara: ser o complemento de Ones & Zeros (2023), não a sua continuação. Se o disco anterior olhava para fora, para as fracturas colectivas, para o que partilhamos enquanto habitantes de um planeta em tensão, este vira o olhar para dentro, não por egoísmo, mas por necessidade de perceber a parte antes de voltar ao todo.


O trio de Coimbra formado por Ricardo Jerónimo, Joana Corker e Henrique Toscano construiu o álbum a partir da energia sedimentada em três anos de digressão, e isso ouve-se: há uma linha que atravessa os dez temas, feita de suspensão, de adiamento, de coisas que resistem sem garantia de chegada. Electrónica e instrumentação orgânica coexistem sem dispersão. A caixa de ritmos não marca o compasso, é parte do conceito.


Falámos com a banda sobre o que distingue construção de acidente, sobre o que muda em dezasseis anos de carreira independente e sobre o que significa rir quando já se tem pouco a perder.


Próximas apresentações: Lisboa (BOTA), 16 de Abril; Barreiro (Sala 6), 17 de Abril; Coimbra (Salão Brazil), 18 de Abril; Sabugal (Auditório Municipal), 23 de Maio; Évora (Armazém 8), 5 de Junho; e Castelo Branco (Café com Leite), 20 de Junho.


The Stone of Madness é apresentado como um disco mais interior do que Ones & Zeros. Foi uma escolha deliberada desde o início ou foi o que foi surgindo ao longo do processo?

Foi deliberado. Quando começámos a pensar no The Stone of Madness, cedo decidimos que este seria feito em paralelo ao Ones & Zeros, não por lhe dar continuidade, mas sim sendo-lhe complementar. E como o disco de 2023 era muito focado, em termos de letras, na noção de que, para o bem e para o mal, estamos todos no mesmo barco (enquanto colectivo de pessoas que habitam um planeta, um país, um bairro), em 2026 o foco era mais virado para dentro, não numa perspectiva egoísta ou individualista, mas numa lógica de (tentar) perceber a “parte”, para assim melhor (tentar) perceber o “todo”. Além disso, os dois álbuns também se complementam de outras formas, como nos vídeos, nas fotos promocionais, no artwork dos discos e até no seu alinhamento. É uma questão de se ir juntando as peças…


O press release diz que o álbum "nasceu em palco". Como é que três anos de digressão se traduziram concretamente na escrita? O que é que o palco ensinou que o estúdio não conseguia?

O que nasceu em palco foi a energia (e o à vontade) que fomos reforçando a tocar ao vivo as músicas do Ones & Zeros. Foi ficando claro para nós que queríamos que o álbum seguinte nos permitisse continuar com esse espírito. Logo nessa altura houve dois ou três temas que compusemos, que experimentámos em alguns concertos e que ficaram destinados ao novo disco.


A tracklist tem uma coerência muito pensada, com "Not Today" a abrir e "When Something Changes" a fechar. Essa arquitectura foi construída à medida que as canções iam surgindo ou só ganhou forma no final?

Foi uma mistura das duas… Houve algumas “âncoras” que muito no início ficaram definidas e essas duas músicas foram uns desses casos, ou seja, quando as compusemos, mesmo antes de as gravarmos, já sabíamos que seriam a primeira e a última do disco. Todo o encadeamento tem uma lógica, pelo menos para nós, incluindo a questão do lado A e do lado B, na versão em vinil. Para nós, um álbum ainda é um objecto válido, como proposta musical e artística, e o alinhamento é uma componente importante disso.


"I Could Laugh" é descrita como tendo uma leveza de superfície que esconde algo mais denso. De onde vem essa imagem do riso como "posição que resta depois de uma certa clareza"?

Essa leveza é-lhe dada pela sonoridade intensa, mas algo descontraída. É uma música muito pop, apesar de alguma distorção na guitarra e das vozes meio gritadas nos refrões. Mas por trás (ou em conjunto) com essa energia, a letra põe-se na cabeça de alguém que acha que já tem muito pouco a perder e que começa a questionar quase tudo, nomeadamente, e de forma meio irónica, se vale mais a pena rir ou chorar.


"Useless Effort" trabalha a ideia de algo que persiste sem garantia de resultado, uma flor no deserto. É uma imagem pessimista ou há nela algum tipo de afirmação?

Uma vez mais (é algo comum) foi uma mistura das duas abordagens, que à partida podem ser encaradas como opostas ou mesmo inconciliáveis. E a letra é precisamente uma forma de abordar essa aparente contradição. Por um lado, introduz imagens algo surreais e desconexas, mas o refrão foca-se na beleza (ou na tristeza, dependerá da interpretação) de imaginar uma flor, no meio do deserto.


Há um fio que liga quase todas as canções: a suspensão, o adiamento, a incompletude. É um estado que reconhecem na vossa vida ou é uma construção deliberada para o disco?

Por mais que se queira criar personagens ou perspectivas mais abstractas, que nos sejam alheias, acho que é sempre inevitável pormos sempre um pouco de nós naquilo que criamos, nem que seja subconscientemente. Essas palavras que referes (suspensão, adiamento, incompletude) fazem parte deliberada do conceito do disco, mas, ao mesmo tempo, estão inevitavelmente ligadas à nossa geração… Se virmos bem, na nossa vida adulta, nos últimos vinte e tal anos, tem havido coisas que consecutivamente parecem que não nos permitem avançar na direção certa ou, pelo menos, de alguma estabilidade: a crise do subprime, bancos a falir, a troika, o desemprego, a pandemia, os populismos, as guerras, o custo de vida, a especulação da habitação, a inteligência artificial… Ou seja, há sempre um lado muito frustrante, nisto de olhar para o mundo e para as nossas vidas. E esse era um dos estados de espíritos que queríamos veicular no disco. Claro que, enquanto pessoas, também temos muitos motivos para reagir e para estarmos felizes e, aqui e ali, isso também passa nas letras.


O disco mistura electrónica e instrumentação orgânica de forma que o próprio texto descreve como nunca dispersa. Como é que gerem essa tensão entre os dois mundos sem perder a linha?

É algo em que temos vindo a trabalhar, ou seja, encontrar esse equilíbrio logo na composição, mas também ao vivo e nos alinhamentos. Nós gostamos desses dois mundos (e de vários outros) e ao longo do nosso percurso, enquanto banda e na discografia, vamos tentando explorá-los, antes de tudo enquanto desafio para nós mesmos e depois como forma de procurar não estagnar artisticamente.  


A caixa de ritmos em "Not Today" é apresentada como "condição, não estética". O que distingue, para vocês, usar um elemento como ferramenta expressiva e usá-lo apenas como textura?

No caso da “Not Today”, sabíamos que queríamos reforçar a repetição, para dar a ideia de frustração ou falhanço consecutivo. E isso acontece na letra, sendo reforçado pelo ritmo que criámos na nossa drum machine. Ou seja, neste caso, esse instrumento não está apenas a manter o compasso ou a ser a base rítmica, foi mesmo parte conceptual da composição.


Sete álbuns é um número que poucas bandas portuguesas independentes atingem. O que mudou na forma como fazem música, e o que ficou exatamente igual?

Ao longo destes 16 anos e de 7 discos (e de mais uns quantos singles e EPs), já algumas vezes nos perguntaram (e nós próprios também nos perguntámos) sobre o que foi mudando. Mas pensar no que se manteve “exactamente igual” é menos comum e, talvez por isso, um pouco mais difícil de responder… Mas uma coisa que ficou foi a nossa vontade em ser parte integrante de todo o processo, ou seja, manteve-se a lógica do it yourself, apesar de não esquecermos as ajudas e colaborações preciosas que tivemos. Outra coisa que talvez possamos dizer que se mantém é a ideia do auto-desafio, como forma de estímulo artístico, tentando que este seja alheio a modas ou mesmo a algumas realidades que nos rodeiam.


A frase com que resumem o disco, “it's only pop & roll but we like it”, tem um lado quase desarmante. É ironia, é defesa, ou é a coisa mais séria que podiam dizer?

Essa frase surgiu-nos uma vez (meio decalcada de um refrão dos Rolling Stones), mas não é um resumo deste disco, nem de nenhum outro, na verdade. É mais uma espécie de cartão de visita da banda, ou uma tagline. Neste caso acertaste duas em três, porque não é uma defesa, mas sim, é ironia e, ao mesmo tempo, é a coisa mais séria que podíamos dizer.


Foto: © Tiago Cerveira

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