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O fumo pervasivo que chega ao foyer do TBA e adensa sala adentro, dilui vultos, público e performers. Entre o que integra a sala e o que a preenche, somos tão espectadores num espaço, como matéria num meio. Um bloco de gelo moldado, num stand metálico ao centro, recebe um foco de luz quente, direta. Sobre essa réplica solar de liquefação, a física opera indiferente, o calor consome, a água escorre pelo linóleo e a última gota oferecerá uma cronometragem quase precisa da duração de ERMO, a Título Provisório, de Mário Afonso (TBA, 15-17/4), ensaio performativo e visual onde a conversão dos lúmens em água é uma cinza do tempo que passa e que resta, uma imagem do que consome para se cumprir, ou uma mais óbvia metáfora da morte lenta.
Neste ambiente espesso, nigérrimo, cavernoso e cósmico, João Bento (som) distribui estalactites e estalagmites sonoras que completam as imagens mentais. Lucas Damiani e Rafa Jacinto gravitarão o centro, capturados à distância e à cautela de quem investiga a força de atração, depois como satélites que orbitam a escultura.
A criação tem a paciência e a latência de uma hipótese cosmológica, onde aquilo que aproxima e agrega os corpos, resistindo à dispersão, pode ser invisível, inferido pelos efeitos, inerte à luz, e todavia constitui o misterioso animus do universo.
Numa convergência aberta, os performers circulam antes de corpos definidos, como uma matéria-escura, pré-instalada, colados ao vácuo num negativo da presença e da direção: braços esticados para baixo, mãos flutuantes com aspeto de embalo, serviço, massa. As mangas ligeiramente arregaçadas destapam aos poucos o volume tátil das figuras que preenchem o ar, como uma almofada de memória lenta depois de levantarmos a cabeça.
A precisão é ascética, atmosférica, não menos densa pelo seu sentido depurado. Um ensaio visual, plástico, com uma estrutura sóbria e coreografia ancorada na lentidão convertida em peso e escrita. Movimentos largos, braçais, por vezes cortes, figuras de preto total. Inteligência rítmica, singular e progressão conjunta: o gelo derrete à sua velocidade, os corpos movem-se à sua, co-existentes e independentes como dois siameses desapegados. As nuances permitem distinguir trajetória de intenção, direção de sentido.
Entre a multitude e a transmissão, em tensão orbital permanente, o par transita por alinhamentos eventuais, conjunções e trígonos subtis com o bloco central, numa conversa entre sentido pessoal e destino coletivo. Pelo vagar contemplativo, inspetivo do ar, convidativo, (as)simétrico, seguimos ou dispersamos o foco, a atenção flutua e reveza-se do duo para a unidade sem número.
Ermo instala e pratica essa qualidade de «Universo, eu sou-te», pessoano, e que se inscreve numa afinidade de trabalhos e processos que o TBA acolheu ao longo dos anos – de Cinza (Nicole Gomes, 2022/2023), de Hydra, (do próprio Damiani, 2023, no aspeto de degelo da identidade), da instalação audiovisual Continuum (Félicie d'Estienne d'Orves/Éliane Radigue, 2019) –, ou mesmo bebe esteticamente de práticas orientais de movimento.
Esse brilho mais próximo do fenómeno experiencial, do que da experiência fenomenal, capaz de osmose e errância habitada, torna menos interessante a abordagem final de encostar o ouvido ao chão para receber o tremor da terra, num efeito sonoplasta portentoso – mesmo que a intenção simbólica de escuta do batimento de um mundo que se consome como o gelo, seja um gesto urgente compreensível. Ao dar corpo literal à imagem da escuta, a obra retoma de algum modo uma postura que a sua própria ontologia tornara obsoleta: a de observador externo de um fenómeno maior. O radical estava em não haver «fora» para escutar, a terra não ser um cenário ou uma etiqueta sísmica. A força elegante estava em não ser uma hipótese coincidir ou não com a última gota. Era uma evidência da condição.
Foto: © Joana Linda
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