O Artista do Futuro

Por

 

Rui Mascarenhas
September 23, 2026

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O Artista do Futuro

Silvestre Pestana e os amanhãs que envelhecem


Há qualquer coisa de estranhamente antiga no futuro de Silvestre Pestana. Em LUSO LUNAR, a exposição que a Bienal de Cerveira lhe dedica em 2026, comissariada por João RIbas e Mafalda Santos, sucedem-se néons, monitores, píxeis, computadores, imagens digitais, ambientes virtuais e painéis LED. Muitos destes dispositivos transportaram, em momentos diferentes, uma promessa de porvir. Hoje carregam, para além disso, uma data. O ZX81 pertence à arqueologia da informática doméstica; determinadas imagens pixelizadas convocam imediatamente os primeiros computadores pessoais; o LED remete-me para uma sala de jogos arcade; o azul eléctrico de Luso Padrão Lunar conserva qualquer coisa da imaginação tecnológica dos anos 1980.


A exposição acrescenta a este efeito uma narrativa. O texto do catálogo apresenta Pestana como uma das figuras «mais radicais, premonitórias e independentes da arte contemporânea portuguesa» e encontra na sua obra uma capacidade continuada de «antecipar futuros possíveis». Dez anos antes, Tecnoforma, a retrospectiva comissariada pelo mesmo João Ribas em Serralves, reunira pela primeira vez mais de uma centena de trabalhos e usara palavras próximas: pioneiro, presciente, utilizador precoce das tecnologias mais recentes. Entre as duas exposições consolidou-se uma figura reconhecível: Silvestre Pestana, artista do futuro.


O futuro hoje


Verónica Metello usou em 2016 uma formulação que nos permite deslocar ligeiramente esta leitura. Falou então da «contínua e lúcida aderência» de Pestana «ao seu presente histórico».


Esta diferença tem consequências. Em vez do artista ocupar alguns metros imaginários à sua frente ele aparece-nos no interior do seu tempo, entre tecnologias disponíveis, promessas contraditórias, entusiasmos, limitações e caminhos cujo destino ainda ninguém conhecia.


É aí que, para mim, o percurso se torna verdadeiramente interessante. Quando Pestana escreve poemas para ZX81 e Spectrum no início dos anos 1980, o computador pessoal ainda procura formas de uso, públicos e linguagens. Quando associa corpo, sinalética e luz fluorescente em Bio-Virtual ou desenha no espaço com Light Pen, Poema Acção, trabalha num momento em que vídeo, electrónica e informática começam a reorganizar a experiência quotidiana. Décadas depois surgirão ambientes virtuais, drones e inteligência artificial. Cada entrada num novo meio implica para o artista aprendizagem, tempo, colaboração, investimento e exposição pública. O resultado, esse, permanece sempre incerto. Trabalhar com o futuro no presente implica sempre trabalhar antes da selecção histórica do que veio a ser esse futuro.


Mecanosfera e segundas vidas


Recorro aqui ao conceito de mecanosfera de Deleuze e Guattari em Mil Planaltos para melhor delinear este campo. Tecnologias, materiais, organismos, instituições, códigos e práticas formam linhas que se cruzam, ramificam e desaparecem. Algumas ganham velocidade e escala; outras ficam suspensas; outras reaparecem depois de transformações inesperadas. O artista encontra-se dentro destes agenciamentos. Segue determinadas linhas, liga-as a outras, força utilizações improváveis, abandona algumas e regressa a outras anos depois.


Uma escolha torna-se aposta enquanto o seu resultado permanece aberto. Vista de 2026, a utilização de computadores pessoais por Pestana em 1982 encaixa facilmente numa genealogia triunfal da cultura digital. No seu momento, essa linha competia com muitas outras possibilidades. A posterioridade conhece aquilo que Pestana ainda não podia conhecer.


O Second Life pode ajudar-nos a restituir, retrospectivamente, essa incerteza ao percurso. Durante vários anos, Pestana investiu intensamente naquele ambiente. O projecto OutDoorCerveira, iniciado através da circulação remota de ficheiros digitais destinados a outdoors físicos, passou em 2008 para o Second Life. Ali desenvolveram-se exposições, encontros, relações com artistas-avatar e formas de circulação entre espaço virtual e espaço físico.


Em 2013, a Bienal de Cerveira integrou intermundos@metaverso: Bienal Virtual, com curadoria de Silvestre Pestana e Celeste Cerqueira, reunindo criadores que trabalhavam dentro daquele ecossistema. Pestana participou activamente numa comunidade internacional que explorava as possibilidades artísticas destes ambientes, numa dimensão do seu percurso que permaneceu bastante menos visível no circuito crítico português.


Durante alguns anos, o Second Life pareceu conter uma possibilidade plausível de transformação profunda da experiência da Internet. A rede poderia adquirir espacialidade, presença corporal através de avatares, economias próprias, instituições culturais e sociabilidade persistente. A plataforma acabou por ocupar um lugar diferente daquele que muitos imaginaram.


Grande parte desse léxico regressou posteriormente sob a palavra «metaverso». Também este não cumpriu, até ver, o futuro que lhe previram. Determinar hoje o seu desfecho seria, porém, apenas repetir o mesmo erro de antecipação. Se outras destas linhas técnicas vierem ainda a ganhar nova força, é provável que também a leitura futurista da obra de Pestana venha a ser novamente revista.


A história das tecnologias está cheia destas bifurcações. A competição entre VHS e Betamax tornou-se o exemplo escolar, embora o episódio seja frequentemente simplificado. Qualidade técnica, base instalada, disponibilidade de conteúdos, efeitos de rede, decisões comerciais e oportunidade contribuíram para produzir o resultado. A tecnologia vencedora surge no fim de uma sequência de relações. Antes disso havia simplesmente múltiplas possibilidades concorrentes. Depois disso, o VHS conheceu a ascensão e queda em prol do DVD, com promessas por cumprir do Blu-ray como nova alternativa, para entretanto tudo isso se esfumar no streaming.


É nesse campo que a presença prolongada de Pestana no Second Life conserva a marca de uma aposta real, cujo resultado histórico continuava por decidir quando a aposta foi feita. Cada presente tende depois a recuperar do passado aquilo que consegue reconhecer como promessa cumprida. O percurso, porém, permanece disponível no arquivo, incluindo as apostas que hoje nos parecem laterais, à espera de outras histórias possíveis.


Uma tecnologia pode envelhecer e deixar disponíveis experiências realizadas através dela. A prática de Pestana oferece várias destas migrações. A palavra abandona a página e ocupa o espaço. O corpo entra na escrita. A luz transforma-se em inscrição. O código participa no aparecimento do poema. A imagem passa por vídeo, computador, ambiente virtual e LED. O suporte muda, e certas operações reaparecem sob novas condições.


A habitabilidade de uma prática pode ser pensada a partir desta capacidade de suportar a variação que sempre chega. Ela não garante sobrevivência nem estabelece um selo de qualidade. Algumas obras ficam profundamente ligadas ao dispositivo técnico que as tornou possíveis. Outras persistem sobretudo como documentação histórica. Algumas conseguem ser reactivadas através de novos meios, adquirindo relações que a configuração inicial nunca poderia conter.


É possível olhar desta forma para a distância entre os Computer Poems dos primeiros anos 1980 e peças recentes como Terras Raras. Entre os pequenos ecrãs monocromáticos e os painéis luminosos mudaram as tecnologias, as escalas e o imaginário que envolve cada dispositivo. Persistem operações em torno da linguagem, do sinal, da repetição, da luz, do movimento e da espacialização. A prática atravessa suportes e cada passagem acrescenta e perde possibilidades.


A obsolescência passa assim a participar activamente na leitura do trabalho. Aquilo que em determinado momento funcionou como imagem tecnológica do futuro pode regressar décadas depois carregado de memória. O LED de hoje transporta consigo arcade, publicidade, sinalização, concertos, computadores e ecrãs urbanos. O pixel deixou há muito de ser apenas consequência de uma limitação técnica e tornou-se vocabulário visual. A própria ideia de «futurista» envelhece.


A retrospectiva como máquina temporal


Chegados aqui, a escala muda. Até este ponto perguntámos o que uma prática consegue atravessar. Uma exposição antológica determina as condições em que essas travessias se tornam visíveis.


Tecnoforma desempenhou um papel decisivo. Reuniu trabalhos dispersos, vídeos, dispositivos, documentação e materiais de arquivo, construindo pela primeira vez uma visão extensa de cinco décadas de produção. Essa operação alterou a legibilidade de Pestana. Trabalhos anteriormente isolados puderam ser vistos em série; técnicas diferentes apareceram como momentos de uma investigação prolongada; relações entre corpo, poesia e tecnologia ganharam continuidade histórica.


LUSO LUNAR volta a accionar esse arquivo em 2026. A montagem aproxima obras separadas por décadas: UNI VER SÓ, Light Pen, Computer Poems, Fénix, Águas Vivas, Terras Raras. Cada aproximação cria uma hipótese de leitura. A exposição oferece entradas pela poesia experimental, pela história política, pelo exílio, pela performance, pelos novos media, pelo corpo ou pela cultura digital.


Uma retrospectiva aumenta deste modo as possibilidades de relação entre obras ao mesmo tempo que estabelece corredores entre elas. «Pioneiro», «premonitório» e «antecipador» funcionam como operadores curatoriais: dão coerência à sucessão e ajudam o visitante a perceber por que razão aquelas experiências importam agora. Ao mesmo tempo, orientam antecipadamente aquilo que procuramos nelas.


É aqui que a distinção entre activar e accionar se pode tornar útil. O protocolo curatorial activa Pestana como precursor de desenvolvimentos que reconhecemos no presente. A mesma exposição deixa disponíveis as contingências que essa narrativa dispensa para funcionar: suportes abandonados, experiências pouco consequentes, comunidades que desapareceram, tecnologias cujo uso social tomou outra direcção. É esse resto que se pode sempre accionar como suplemento. O Second Life adquire aí especial importância porque conserva uma possibilidade histórica que perdeu centralidade sem perder inteiramente a sua fertilidade.


Como contraste, a prática de Leonel Moura oferece-nos o exemplo de uma operação temporal diferente. Centrado na autonomia e criatividade das máquinas, Moura constrói um programa que disputa antecipadamente uma possível inscrição na história da arte: a do artista que reconheceu cedo uma transformação da autoria. Pestana permite-nos observar outra temporalidade, construída ao longo de décadas em que sucessivos gestos artísticos se encontraram com tecnologias ainda em transformação. Viu o vídeo passar de meio experimental a dispositivo quotidiano, o computador pessoal transformar-se em infraestrutura universal, o espaço virtual conhecer sucessivos ciclos de entusiasmo e retração, os drones migrarem entre brinquedo, imagem, vigilância e guerra, e a inteligência artificial tornar-se agora uma tecnologia cultural corrente. Algumas das escolhas que fez expandiram-se enormemente. Outras ficaram associadas a mundos técnicos que perderam centralidade. Outras voltaram sob formas difíceis de reconhecer à partida.


Regressar aos monitores, néons e LEDs de LUSO LUNAR depois deste percurso altera ligeiramente a experiência. Cada dispositivo conserva o presente em que Pestana o encontrou, os futuros que naquele momento parecia permitir e o presente a partir do qual hoje o vemos. Esses tempos coexistem na mesma sala.


Talvez seja aí que uma retrospectiva deste tipo ganhe a sua maior potência. O arquivo deixa ver aquilo que as histórias lineares costumam apagar: hesitações, desvios, linhas interrompidas, apostas cujo sentido mudou. O artista aparece novamente dentro do tempo, rodeado por possibilidades ainda sem vencedor.


Nessa sala, por instantes, o futuro volta a ser aquilo que era quando Pestana o encontrou: uma possibilidade entre outras, sem garantia de que fosse a que ficaria.


Foto: © Guilherme Pacheco

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