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Maiúscula com M, mas também M de minúscula, M de mulher, M de Medeia.
Um lustre. Uma luz ténue e quente. Uma atriz sentada no canapé florido.
“Caíram as cuecas da corda.” Tudo começa assim.
Não se diria que era uma encomenda, não fosse o Jacinto Lucas Pires a explicá-lo. Não se adivinharia que a atriz, Luísa Cruz, foi o princípio e o fim deste M Maiúsculo, mas faz sentido.
Seja como for, larguemos a folha de sala. Só para que ela não dite ou reescreva, sem que se perceba, lugares que habitamos, enquanto espectadores, ao assistirmos a esta peça. A encenação de Marco Barbosa e a interpretação, magistral, de Luísa Cruz, que carrega esta mulher e as outras que tem dentro, leva-nos a um texto maduro, com uma ironia impregnada de sentido, a um texto que nos suga.
Não me vou abrigar em plurais majestáticos. Não há como fingir que este espetáculo não estabelece uma relação dialógica tão intensa com quem somos, com os nossos medos, com os abismos que atravessamos, que o desconcerto faz parte do pacote.
A atriz a fazer de atriz, a atriz a ser pessoa e personagem. Em palco temos uma mulher que encontra, em peles que não são a sua, um lugar de repouso. Benedetta descansa dentro de si e fora de quem é. O cansaço que sentimos, mesmo nas suas piadas amargas, mesmo quando rimos e, sempre, quando ouvimos a descrição dos seus sonhos falidos em Monte Carlo, dos seus devaneios nas praias de uma ilha grega, do glamour decadente de um qualquer lugar inventado, é real. Há um telefone que cria musgo. Há um odor. Aquele odor do que é velho. Há o cheiro a mofo. Há partículas de pó que se acumulam. Há um vazio a que aquela mulher tenta dar significado, sentido e forma, como se fosse possível.
Nessa solidão quotidiana, Benedetta parece ter saudades de quem foi, dentro e fora das personagens, parece não compreender quem é agora, parece temer não se reconhecer no corpo da pessoa em quem o tempo a tornou.
O que nos parece propor Jacinto Lucas Pires? Que nos sentemos a ver, a escutar, a sentir a solidão, concreta, prosaica, quotidiana, de uma mulher que passou a meia-idade, que cumpriu metas e, entretanto, ficou no limbo de um agora preso ao antes. Benedetta habita só. Foi abandonada pelo marido, o tal que, hoje, com uma dentição irrealisticamente branca, bronzeado, se passeia com a sua nova namorada, estupidamente nova, de fio dental. Foi desprezada pelo filho, Jonathan, que, lá longe, em Copenhaga, parece pouco disponível para os seus telefonemas. Natascha, a empregada doméstica, a quem chama, recorrentemente, sem que nunca apareça, imagina envolvida numa qualquer relação tórrida, prestes a anunciar uma partida com um parceiro amoroso, aquele com quem “há-de correr tudo bem, se Deus quiser”.
Benedetta parece submersa, qual Winnie, de “Há dias felizes”, de Samuel Beckett, num somatório de experiências amarfanhadas, de vivências acabrunhadas na falência dos dias, dias que se sucedem sem que nada lhes devolva o fascínio real do antes. Há só o dia, um dia, um dia depois do outro, e um desalento que se entretém ora com a banalidade, ora com aquela personagem épica imaginária. "O meu rosto exibe-me a alguém que foi Ofélia". Quem é Benedetta? Narciso, Dorian Gray, Medeia? Uma mulher com M maiúsculo, mas com consoantes e vogais onde tantas personagens cabem?
Divorciada, desempregada, falhada? O que esperam de uma atriz, de uma mulher, de uma mãe? Que seja mais ou menos que uma pessoa? Benedetta quer ser a Medeia, aquela que o realizador lhe promete, a diva, a personagem das personagens da tragédia grega, aquela mulher que vinga o destino, que o comanda, que o toma nos mãos, que afronta o juramento traído de Jasão, que mata os filhos. Mas não será Medeia também uma desgraçada, uma vítima do abandono e do infortúnio?
É no silêncio das paredes de casa que Benedetta Croce sente aquele telefone que não toca, naquela casa de onde não sai há tanto tempo: “Lembro-me de sair como quem se lembra da última viagem ao Egipto”. É ali que ela se vê, se esconde, sonha, se amargura, descansa. Descansa de si mesma, enquanto o tempo, impiedoso, passa. Afinal, como dizia Vergílio Ferreira: “Está-se só a toda a hora”.
Duas palavras ecoam quando se sai da sala: tempo e solidão. Saímos com uma mala enorme, carregamos um peso difícil de suportar, o da solidão real, como se pegássemos em nós mesmos ao colo sem saber por quanto tempo.
Está em cena no Teatro Carlos Alberto, no Porto, até dia 13 de setembro. É um exercício de reflexão existencial doloroso, sem deixar de ser divertido, mas sobretudo poético e obrigatório.
Foto: © José Caldeira
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