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O Cais e o Caos

Por

 

Ivo Saraiva e Silva
March 8, 2023

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O Cais e o Caos

Os modos de sociabilização e inscrição no mundo contemporâneo ocorrem através do filtro da multiplicação. Ante a aceleração dos dias, onde os acontecimentos fervilham e os modelos para lidar com os mesmos são chamados a serem cada vez mais audazes, efémeros e eficazes na garantia do bom funcionamento que vise uma engrenagem que não cesse, que se ultrapasse incansavelmente, o modus vivendi de uma qualquer pessoa observa-se refém de um multitasking ativo no acompanhamento e na atenção ininterrupta a todo o meio envolvente e a tudo o que nele se passa. Este estado operacional a que nos acostumamos e a que já muita gente investiu reflexão e posicionamento, acabou por orientar comportamentos dinâmicos, de ordem muito versátil, na elaboração de territórios íntimos que se expandem para lá das nossas condições e lugares físicos. As relações interpessoais rapidamente se transformaram em relações mundiais, e têm hoje reverberações muito concretas nestas duas circunstâncias.


Um modo de atuação que está eminentemente implicado num contexto mais alargado – mundial, acredita-se –, faça o que se faça, parece apresentar-se favoravelmente animado mas excessivamente complexo, ainda. Ou seja, é da vontade da maioria insistir numa comunicação que assiste a relações com o outro distante, familiar ou desconhecido, através da pressa de se ser protagonista em fotografias, vídeos risonhos ou stories filtradas que exibam uma experiência, um estilo de vida, uma declaração ou um challenge. A multiplicação destas ações articula um circuito de interação frenético, criado ao momento, agitando identidades, ampliando-as, e facilitando uma correspondência exaustiva, sim, mas que preconiza uma intensidade relacional nunca antes experienciada com tanta veemência. Nos anos vinte (anteriores [1920-29]), as formas de comunicabilidade eclodiram em relações vibrantes; hoje, nos novos e nossos anos vinte, muito devido à situação do covid-19 – que fechou as pessoas em casa e acabou por democratizar os formatos digitais de comunicação interpessoal –, as relações apresentam-se intensas, mas de um modo mais sofisticado. Ainda assim, todo este circuito desinquieto escolta as opiniões que tendem a multiplicar-se e os posicionamentos que inclinam a polarizar-se, enformando uma circunstância desconcertante, muitas vezes não tão fácil de se conseguir um entendimento esclarecedor (tal como há cem anos).


Se, em arte, a dimensão criativa reflete as conjunturas que as sociedades atravessam ao momento, e é lida por elas, parece ser da tarefa das configurações estéticas e dos processos intelectivos a promessa de análise desta avalanche de informação, numa tradução que desenhe um discurso poético-político dos objetos. Ao artista, quando se apercebe desta ocupação e se coloca à disposição de tal reflexão, é-lhe oferecido uma profusão de acontecimentos paralelos, materiais substanciais para a criação. Seja qual for a temática a abordar, as interseções entre os saberes são inevitáveis, criando um núcleo bastante vasto de propriedade intelectual: as premissas multiplicam-se como a condição atual, vão dar umas às outras. Na angústia da conceção de um trabalho artístico, esta efervescência de material poético cúmplice com o quotidiano acaba por desembocar, com facilidade, uma confusão de elementos que se endereçam uns aos outros, criando um caos de pensamento ao criador. O maior desafio será o de orientar a dialética em construção, permitindo o caos, na perceção daquilo que este imbróglio oferece ao favorecimento da finalidade discursiva da obra a ser realizada. Talvez por isso a arte contemporânea no geral – e o teatro, em particular –, explore e corporize o caos organizado numa obra, no seu processo, num espaço cénico, na sua distorção especulativa da convenção, que desconstrói a(s) disciplina(s) para a qual/quais trabalha para lhe propor/construir novos itens, quiçá um futuro cada vez mais vibrante.


O caos é fundamental. Quer seja numa residência artística, por exemplo, ou num simples estúdio alugado a amigos num bairro qualquer da cidade, a criação de uma circunstância caótica que potencie o estímulo ao relacionamento das matérias e veicule um esgotamento das mesmas, pode implicar invariavelmente a permissão de um espaço aberto, vazio, que acolhe novos elementos imprevisíveis. Permitir o caos é reclamar o imprevisível. Na obra Caos e Ritmo, José Gil nota que “Não podemos confundir caos e inconsciente. Mais uma vez, é o emergir do inconsciente na consciência que provoca (e suscita) o caos. Uma das tarefas essenciais do filósofo consiste, pois, em trabalhar o (e com o) inconsciente de modo a alargar o campo de pensamento que até aí se percorria com a consciência. “Trabalhar o inconsciente” significa: fazer de tal modo que as operações do inconsciente (decomposição, envolvência, e toda a série de operações descobertas por Freud, como condensação, deslocamento, contração, redução do maior ao menor, etc.) incidam no novo campo (aberto pela desestruturação da consciência, pela dispersão e fragmentação dos elementos e matérias libertadas), captem e conectem os elementos e as matérias, definindo um novo espaço de pensamento. É graças às operações do inconsciente que do caos sai o alargamento deste espaço.” (GIL, José, 2018, Caos e Ritmo, Lisboa: Relógio d’Água).


De facto, já no exato momento de alguém se dispor à reflexão, há toda uma abordagem a conceitos preconcebidos que são postos em questão, e que só é possível no exercício do caos. Não obstante, a experimentação artística que procura o imprevisível que emerge da confusão, e vice-versa, pressupõe uma constante intermitência entre o caos e a organização do mesmo. A (re)estrutura temática e dramatúrgica equaciona uma justa correspondência entre o constante e o inconstante, naquilo a que se define por teatro experimental. O caos e o ritmo, portanto. Será dentro deste modo de operação que se insurja a disrupção: a fricção entre o caos e a sua organização faz despontar um terceiro elemento, o tal imprevisível, que é logo questionado imediatamente, na fase seguinte. É esta oscilação que permite que a obra de arte se insufle.


Talvez a obra se erga sozinha e se vá construindo assente em imprevisibilidades, assim como o quotidiano. Mais ainda, quem sabe, o inesperado a que chegamos possa ter sido o ponto de partida que não conhecíamos, que residia silencioso no inconsciente. A obra que iremos criar, já a conhecemos, na verdade. Muito provavelmente, a arte tem essa função ingrata de ser o veículo com que se desvenda o inconsciente humano, na eterna busca por algo que ainda não se conhece mas que está lá. Camões auxiliou-se das musas, no cais, e Rita Vian parece chamar sereia a esse movimento, a essa entidade que nos assombra carinhosamente, e nos impele para os dias seguintes: “Sereia / Que danças à meia noite na minha beira / E que me espera sempre em cada esteira / Dos barcos que eu não vou mais ver” (Sereia, Rita Vian, 2020). Esperemos no cais, enquanto pensamos no caos.


Créditos da imagem: Alípio Padilha

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