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Uma ponte a meio caminho

Por

 

Pedro Boléo
July 26, 2026

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Uma ponte a meio caminho

Pons Varolii, uma obra do compositor e pianista Simão Costa que parte de um «fascínio» pela ponte 25 de Abril, estreou no Teatro São Luiz, em Lisboa, no dia 18 de Julho. No dia seguinte, 19 de Julho, com uma sala bem composta de público, fomos escutar esta novíssima peça de Simão Costa para piano e orquestra, com um vídeo de Mário Melo Costa.

 

«Pons» vem do latim, «ponte». E «Pons Varolii» é também uma parte do cérebro humano, que faz a ponte entre «funções vitais» e as zonas mais evoluídas do córtex cerebral. O título escolhido por Simão Costa tem a ver, pois, com a ponte 25 de Abril, o seu som, a sua engenharia, a sua arquitectura, mas também com a biologia e o instinto humanos. Ao mesmo tempo é uma celebração dos 60 anos da ponte 25 de Abril, essa obra que é parte do quotidiano de tanta gente, mas que nunca vimos e ouvimos assim. E assume ainda uma outra reflexão, que o compositor designa como homenagem «à memória e à liberdade».

 

Nesta proposta ambiciosa, é impossível não lembrar a forma clássica (mil vezes reinventada) do «concerto para piano e orquestra», que Pons Varolii não é, embora mantenha um diálogo aberto com a história deste encontro (o piano transformado de Simão Costa é sempre, afinal, «memória e liberdade»).

 

Pontes várias, portanto. Mas a ponte primeira em Pons Varolii é a que liga as imagens em movimento aos sons de piano e orquestra, uma ponte entre artes que se cruzam, ligam e atravessam — música e vídeo.

 

Vídeo e música entrelaçam-se de forma estreita: simultaneidades rítmicas entre imagem e som colocam-nos, logo desde o início, perante um objecto audiovisual que se assume como duplo e que viaja nos dois sentidos, desdobrando depois as suas intrincadas relações.

 

O piano estava levemente descido no elevador do palco, e à frente dele se sentou Simão Costa (colocando headphones), permitindo ver o maestro Pedro Neves (também com auscultadores para possibilitar sincronizações rigorosas), a Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML) e, atrás deles, a projecção do vídeo de Mário Melo Costa.

 

Vídeo que logo «dá o tom» de muito do que virá a seguir, lançando planos em contra-picado da estrutura da ponte 25 de Abril. A música começa também impetuosa, com gestos rápidos e jogos rítmicos, em jeito modernista. Nas imagens, vem-nos à memória o cinema de Jean Vigo (A propos de Nice, por exemplo) ou a câmara do cinema de Dziga Vertov. É uma câmara que sobe a lugares difíceis, olha para cima e para baixo, um olho que sobe à ponte 25 de Abril e olha com fascínio, sim, mas sem fazer nunca da ponte uma bela paisagem. O que ressalta é a materialidade da ponte, o seu tabuleiro, as suas estruturas, as linhas dos cabos e ferros que a atravessam e a sustentam. Veremos depois, ainda mais de perto, parafusos (serão uns três milhões) e ligações, candeeiros, torres, estrada e tabuleiro de aço com buracos de onde se vê o rio. Nada de postais da ponte, só a força da sua estrutura, da sua forma, da sua potência metálica e, mais tarde, o movimento que a atravessa: automóveis, comboios, ar.

 

O vídeo de Mário Melo Costa foi o ponto de partida mais imediato para a composição musical, através de um processo de «alquimia» (neste caso, de sinestesia) bem ao gosto de Simão Costa, transformando cores e ritmos da imagem em dados de base para a composição musical — traduzindo em som (ou será «transmutando» em som?) aspectos formais das imagens em movimento.

 

Para além de um olhar formal/material da ponte, onde flutua uma vida humana feita de passagens, o vídeo usa abundantes saturações da imagem, desfocagens, sobreposições e nele palpita uma vibração constante, que é a vibração permanente e ruidosa da ponte, invisível e inaudível no habitual postal turístico com Cristo-Rei ao lado. Desafio grande para a composição musical e para o piano: dialogar e enfrentar esta vibração das imagens, estas saturações, estes «ruídos» do vídeo e da sua montagem rápida e ágil. Mas a criação musical de Simão Costa nem sempre foi capaz de manter viva esta vibração visual/auditiva que a sua interessantíssima proposta deixava ambicionar.

 

A música começa só na orquestra, na primeira das dez partes de 4’33’’ (um piscar de olho à duração da famosa peça silenciosa de John Cage). Depois, vem o piano, sugerindo que poderia participar activamente com as suas cordas bem esticadas na partitura visual que tinha em mãos, ao jeito de «concerto». Mas logo depois se põe a repousar, num par de acordes consonantes e, embora a música mantenha a sua vivacidade «sujando» estes acordes com outros sons, o que emerge é um clichê da música para cinema, inevitável quando se sobrepõe música assim (acordes repetidos ressoando no piano) a imagens em movimento.

 

Felizmente, logo depois a música procura novos impulsos e novos caminhos, como por exemplo numa repetição melódica (em loop) do piano que a orquestra amplia, enquanto vemos, pela primeira vez nas imagens, o comboio que também percorre a ponte e as suas linhas. De novo com a câmara lá, em sítios onde nunca fomos e dificilmente iremos alguma vez, no meio da ponte. Uma câmara-olho em sítios perigosos, mas que a música evita, preferindo por vezes sublimar a materialidade da ponte 25 de Abril em vez de fazer o caminho exaltante da sua vibração ruidosa, do seu perigo, do inaudível ao lado do nunca visto (pelo menos desta forma).

 

O caminho criativo aberto pela ideia de «escutar a ponte» (que nos parece um dos mais interessantes) também está lá, mas parece-nos que fica a meio, evitando o confronto maior que seria pôr o piano mais ousadamente a propor o inaudito, com sons e ruídos a perturbar a nossa visão plácida de uma ponte barulhenta, perigosa, quase violenta. Ou seria deixando mais livre o «instinto», menos refreado?

 

Talvez esperássemos também mais do trabalho específico sobre o piano, sabendo do que tem feito Simão Costa na estimulante reinvenção e destemperamento criativo deste instrumento com 300 anos, trocando-lhe as voltas, alterando-lhe o som, traduzindo e transpondo pontes técnicas, históricas e sonoras. Esse tipo de trabalho aparece demasiado discretamente em Pons Varolii. Falta-lhe a aspereza, o ímpeto exploratório e a radicalidade que encontramos noutros trabalhos deste compositor e pesquisador das potencialidades do piano em relação com as novas tecnologias.

 

Uma palavra para a OML e o seu maestro Pedro Neves, empenhados na revelação da partitura e nas suas propostas sonoras diversificadas. A OML mostra uma abertura e entrega exemplares à interpretação de música da actualidade, pondo na descoberta da arte musical de hoje a mesma intencionalidade e a mesma dedicação do que em qualquer obra do repertório.

 

Algumas boas ideias da composição parecem surgir tarde demais, já perto do fim, numa secção nova em que Pedro Neves dirige como se improvisasse com a orquestra, por exemplo (com um som de «afinação da orquestra» entre os gestos possíveis) e logo depois, onde quase nos pareceu que uma outra peça poderia começar, para fazer o caminho da ponte-que-nunca-ouvimos-assim, para, através das «transduções» do piano de Simão Costa, sentir mais veementemente a vibração da liberdade.


2026.07.23
Pons Varolii de Simão Costa;
com vídeo de Mário Melo Costa;
Pedro Neves (maestro), Simão Costa (piano)
Orquestra Metropolitana de Lisboa;
19 de Julho, São Luiz Teatro Municipal, Lisboa.

 

Crítica do Espaço Crítica para a Nova Música disponibilizada no âmbito da parceria estabelecida com a Miso Music Portugal e o portal mic.pt.


O Autor escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico.


Foto: © MaoSimMao

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