O Festival Música Viva 2026 afirma-se como um palco de resistência estética e ética num mundo atravessado por crises profundas: a consolidação de poderes hegemónicos, o agravamento das desigualdades, a normalização da tirania, o massacre e a erosão progressiva da humanidade e da natureza. Perante este estado do mundo, o festival assume a insurgência como necessidade vital num gesto consciente contra a inércia, o silenciamento e a indiferença.
Nesta 32ª edição, Insurgência é simultaneamente poética e política. A criação musical surge como acto de confronto, de desvio e de recusa, afirmando a arte como arma sensível contra a violência estrutural, a desumanização e a lógica do medo. As obras apresentadas não procuram o conforto, mas antes a fricção: questionam, expõem feridas, abrem fissuras e convocam novas formas de escuta, pensamento e presença.
O programa cruza linguagens, gerações e geografias, reunindo artistas que desafiam modelos dominantes, exploram os limites do som, do corpo, da palavra e da tecnologia, e afirmam a contemporaneidade como espaço de urgência, pluralidade e risco; encontros que propõem e constroem um percurso de escuta intensa e de reflexão crítica sobre o nosso tempo.
O Festival Música Viva convida este ano a palavra poética como acto político e sonoro: em cada concerto, poetas, escritores, actores, lêem poemas sobre insurgência, resistência e liberdade; vozes que entram em diálogo com as obras musicais, ampliando o campo de sentido de cada encontro. A poesia não ilustra a música nem a música ilustra a poesia, mas ambas habitam o mesmo espaço de risco e, constroem juntas uma forma de presença que recusa a passividade. Poesia e textos de Shahd Wadi, Gisela Casimiro, Jorge de Sena, Luiz de Camões, Audre Lorde, Mrika Sefa, Sidónio Muralha, Gonçalo M. Tavares e Mário Dionisio, por Shahd Wadi, Gisela Casimiro, Rosinda Costa, Mrika Sefa, Marta Domingues, João Morales, Joana Santos e Miguel Azguime.
No Festival Música Viva 2026, insurgir é resistir à uniformização do gosto, é criar contra a violência da repetição, é afirmar a arte como lugar de liberdade, imaginação radical e responsabilidade.
Num mundo em colapso, a arte musical e a arte poética, tornam-se actos simultâneos de insubmissão e de esperança activa.